O resto é silêncio

Partilho convosco um conto de José Faria Costa (sob o nome literário de francisco d'eulália), publicado no periódico O Primeiro de Janeiro.
Não posso e não devo acrescentar nada.
No Jardim da Misericórdia
No Jardim da Misericórdia encontrei o Rei dos Álamos. Estava sentado, sozinho. Ninguém lhe falava. Pobre Rei dos Álamos. Perdeu o filho. Perdeu a razão. Perdeu a razão do filho. Mas comigo ria e soltava palavras sábias. Senti-me honrado. Não a todos o Rei dos Álamos dirigia o olhar. E disse-me que a solidão que vivia no Jardim da Misericórdia era o contrário da ingratidão mas estava longe de ser a plenitude. Então, não percebi. E disse-me que o sorriso com que olhava a gente muda era a única maneira de os fazer falar. Então, não percebi. E disse-me que o céu não é mais do que uma linha imaginária que só os impuros redimidos conseguem traçar. Então, não percebi. E disse-me que os anos que passam não são mais do que folhas verdes e radiantes que maldosamente se arrancam à árvore da vida. Então, não percebi. E disse-me que o ouro e os diamantes são brinquedos de deuses maiores mas que não são transmissíveis. Então, não percebi. E disse-me que tivesse sempre o mal diante dos olhos, pois só por ele se chega ao efémero do bem. Então, não percebi. E disse-me que o amor é um desencanto que tem fundamento nas asas da ternura. Então, não percebi. E disse-me que o desatino da vida não era efeito de nada mas causa da imobilidade do pensamento. Então, não percebi. E disse-me que nada nem ninguém pode pedir qualquer coisa a quem quer que seja, pois só o gesto comprometido com o nada tem valor. Então, não percebi. E disse-me que o Sol era um ponto de mil pontos incandescentes e que ia e que vinha e que estava longe de ter o tamanho de um pé. Então, não percebi. E disse-me que os homens e as mulheres não se amam mas toleram-se na crença de amores insípidos. Então, não percebi. E disse-me que a guerra é a continuação absurda do que se quiser mas não da política. Então, não percebi. E disse-me que o ódio é um ramo de giestas amarfanhado pelo vento da insânia. Então, não percebi. E disse-me que a sabedoria era o nada que ficava depois do vento norte ter varrido a erudição. Então, não percebi. E disse-me que deus era o centro infinito de uma esfera infinita que albergava infinitas esferas todas independentes mas todas ligadas. Então, não percebi. E disse-me que os lírios do campo se tingem sempre de amarelo quando cai a flor da misericórdia. Então, não percebi.
Deixei de ir ao Jardim da Misericórdia e passei a vaguear no Jardim da Compaixão, porque disseram que aí passeavam, amorosamente e de braço dado, a Rainha da Loucura e o Rei do Entendimento. Mil vezes os procurei. Mil os não vi. Só um dia, quando o Sol já se queria ir embora, ao longe, vi dois vultos, entre as árvores e deitados nus na relva, que se amavam. Tive a certeza de que eram eles. Por pudor virei a cara e não lhes vi o rosto. E continuei sem perceber.
Uma manhã, cansado de ter andado por todos os outros jardins, voltei ao belo Jardim da Misericórdia. Mal entrei senti que tudo mudara. E então percebi, em fulguração, tudo o que, então, não entendera. O Rei dos Álamos já lá não estava. Não sei para onde fora. Sentei-me no banco em frente da bica de água onde, com ele, passara anos e anos da minha vida. Talvez toda a vida. Sentei-me. Olhei em volta. Olhei para cima por desfastio. E no céu, por entre o esfumado das nuvens, consegui ler: "não tenhas nem peças, fica e vai". Não percebi.
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